quarta-feira, 30 de julho de 2014

Crônica: Na espera do exame laboratorial

Eu fico na espera (em qualquer lugar que seja) atenta a tudo que acontece ao meu redor. Um ouvido está na senhora que reclama do atendimento lento, o outro mais envolvido na conversa saliente das duas moças do outro lado, abordando a relação daquela que parece perdida no meio cominho. E esse assunto é bem mais interessante pra quem tem que passar um bom tempo esperando.

-Minha filha, olhe, você tem que esquentar sua relação. Porque senão vem outra cheia de amor pra dar ao seu marido.

Para tudo! A mulher de cabelo amarelo, shorts amarelo, a única coisa que diferenciava era a blusa estampada, porém com amarelo, falou tão alto àquela frase que eu ia fazer uma chamada no celular e de imediato desisti. E pensei: se ela olhar pra mim eu entro na discussão da relação.

Batata! Quando me dei conta estava eu lá dando palpite na relação alheia. Foi quando a outra em questão, jovem, porém com um dialeto bem particular respondeu:

-É mermo né mulé, meu marido é um homem tão bom (esse sargento da polícia), se eu não fizer por onde vem outra e leva. Mas eu sou tão ruim pra ele mulé, eu reclamo, brigo por tudo, não tenho vontade de sair, gosto de ficar cuidando da minha família.

E parece que cuidava de todos mesmo, mãe, irmã doente, irmão que bebe, sobrinha, cachorro, gato, papagaio...

Eu ali que já estava no meio da conversa mesmo, fui abordando e junto com a outra (aquela, amarelo geral) fomos tentando abrir os olhos dela, já que resolveu botar a relação em questão. E depois de ouvir todo o enredo da história:

-Vocês estão precisando de intimidade, de carinho, de ligar no meio do dia e falar: amor, estou com saudade de ouvir tua voz, de um jantarzinho a dois, um vinho, vocês precisam namorar como antes.

Eu toda romântica, jurando a exper no assunto. Quando vem a canarinho, a moça do danado do amarelo (muito simpática por sinal), mas eu encasquetei com o amarelo dela, e sai com essa:

-Sabe o que eu faço com meu namorado? Eu ligo pra ele e falo: amor eu acabei de sair do banho, estou aqui toda molhadinha, vem aqui me enxugar meu gostosinho. Ele diz: sua “covarda” me pegou no ponto fraco.

Bem assim rsrsrs(ri horrores no meu interior), eu lá tentando dar romantismo ao fato, a criatura me sai com uma dessa, mas tudo bem, cada um tem o romantismo que lhe convém ou que a situação permite. Nisso a perturbada em questão, quebra toda a magia da conversa e consegue (acredite) ser ainda pior.

-Muléeee, tenho "corage" de ligar pra ele não mulé! Pra dizer que tô com saudade e que amo ele. Tenho não mulé, morro de vergonha. Vocês falando desse jeito oxente, fico doidinha.

Mas doidinho mesmo estava um camarada que envolvido por aquele papo feminino (deve ter se identificado no mínimo), ia cada vez se aproximando pra se inteirar do assunto.

-Você não gosta de receber carinho, massagem no ego, que você é a “mulé” da vida dele (até eu nessa hora já tinha entrado no dialeto dela), pois bem, seu marido também gosta de ouvir que é importante pra você e tudo mais
.
A canarinho que não é fraca nem nada foi logo curta e grossa, até porque, o sargento lá destacava em uma cidade distante. E passava dias longe de casa.

-Olhe amiga vou lhe dizer, ou seu marido lhe ama muito, ou ele se faz de besta pra encher você de chifre. Homem de farda é um perigo minha filha. E você não está dando o carinho e atenção que ele precisa.

Eu só via o camarada rindo do lado disfarçadamente ao celular, jurando que a gente era besta.

-Vixe Maria mulé, diz isso não! É mermo né? Ele diz: Filha eu te amo, só tenho tu na minha vida. Vou ligar pra ele agora, pra saber onde ele tá. Ai meu Deus mulé, o telefone dele só chama, eu chega tô tremendo, fico logo nervosa.

Nervosa estava eu, todo um processo, junto com a psicóloga de amarelo, tentando passar uma informação e a criatura não absorvia. E eu ainda falei:

-Não questiona, diz que ligou porque sentiu saudade, vontade de ouvir a voz dele blá blá blá. Ela me sai com essa:

-Filho? Oi filho, tu tá aonde? Tu tava fazendo o quê?

E eu feito uma louca fazendo sinal pra ela, não faz assim, seja mais doce...

-Olha filho eu tô com saudade de tu! Porque tu tá rindo? Eu quero tu filho!

Eu e a canarinho olhamos uma para a cara da outra, sem acreditar que a pessoa não conseguia fazer um charminho para o próprio marido. Porém, ao seu modo já foi um começo dizer que estava com saudade, uma quebra de barreira.


Moral da história, a gente se prende a detalhes tão insignificantes na vida, por orgulho, por medo, por conceitos infundados, e se esquece de valorizar aquilo que realmente é fundamental pra viver melhor, amar, cuidar, dar carinho e ter vontade de fazer valer a pena cada dia como se fosse sempre o primeiro. Esses fatos corriqueiros que caem de paraquedas as vezes no nosso dia a dia, só serve para nos fazer refletir nossos próprios atos. Pense nisso!